Eu tenho uma coisa, talvez seja minha prima. A criatura foi cuspida no planeta com o nojo que uma patricinha nova-yorkina compraria um prada da coleção passada.
Ela não tem sorte. E “não tem sorte” foi um eufemismo.
Quando ela nasceu, faltou oxigênio no cérebro dela. Então, ela ficou lentinha, pobrezinha. Fim? Claro que não! Começo! Isso é o de menos, porque nem todo mundo tem esse QI genial que eu tenho, e , mesmo assim, a maioria das pessoas consegue sobreviver sem bater continuamente com a cabeça na parede várias vezes por dia porque a burrice delas não chega a tanto.
Não dá nada! Continuemos…
Pobre já não tem muito essa cultura de estudar, e ela que era ‘lenta’, tava lascada. Nunca passou pela cabeça de ninguém estimular a guria a concluir qualquer estudo. Tudo bem, a gente finge que ela não conseguiria, assim como a gente finge que ao mesmo tempo eu NÃO tinha uma colega no colégio que tinha exatamente o mesmo problema que ela e hoje é formada em medicina. A gente finge tudo isso, porque, ser lenta e não ter estudado é o menor dos problemas da guria, como já concluímos no capítulo anterior.
O problema de pobre é que, normalmente, pobre é ignorante. E eu não tenho nada contra pobre (mentira, pq quando a pessoa se ESFORÇA pra continuar pobre, sim, me irrita). Então, a coitada da mãe dela levou a guria no ‘dotô’ (Dotô bom, daqueles de graça, que atendem os pacientes com atenção e tu vês que fazem o que fazem por vocação).
O ‘Dotô’ falou que era pra tratar a desinfeliz como uma adolescente normal. Que era pra estimular que ela saísse com as outras meninas e se comportasse como as outras, porque ela provavelmente não fosse apresentar sinais de maturidade e se comportaria como uma criança pra sempre.
Aí fudeu. Fudeu literalmente, porque inclusive, engravidou.
Quando a mãe dela descobriu que ela tinha engravidado, morreu de desilusão. Os médicos dizem que foi câncer, mas eu sei que foi desilusão.
Em seguida, a criança nasceu. Nasceu e foi só o que fez, também! Porque não fala, não caminha, não porra nenhuma e ainda tem problemas neurológicos que fazem ele se retorcer todo. O pai da criança, a gente não sabe quem é, não… talvez ela saiba, (com sorte, porque na fase de ‘estimular’ o comportamento ‘normal’, ela foi beeeem estimulada pela mãe, aquela que morreu).
Ficou ela, então. Sem poder trabalhar, porque quem não estuda trabalha por pouco e quem trabalha por pouco não pode pagar enfermeiro pra cuidar do filho semi-vegetativo e daria na mesma que não trabalhar e cuidar ela mesma do filho.
Ficou ela lenta, sem estudo, de mãe morta e filho semi-vegetativo de pai desconhecido, morando na favela.
O pai dela que graças a Deus, sustenta todo mundo, mais os filhos da outra irmã que é super bem casada com um ladrão que vive ameaçando de roubar a casa deles e tal.
Ah, te peguei! Imagina que ela ía ter alguém que sustentasse… ano retrasado o pai dela morreu também. E a irmã do meio casou com um moço muito bom que tá de OLHO na casa que ela mora (que o marido da outra irmã rouba periodicamente)
A criança vai fazer 10 anos agora. Eu nunca conheci. Eu posso ter um humor ácido, mas eu não tenho estômago pra esse tipo de sofrimento. Isso é vida real, real demais pro meu gosto. E eu agradeço a Deus todas as manhãs por não ser a minha.