Março 29, 2008...5:25 am

Ah, vida real…

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Desgraça é uma desgraça! E nunca vem sozinha, a maldita.

Eu tenho uma ‘coisa’, talvez seja minha prima… a criatura foi cospida no mundo com toda a carga de energia negativa que um bebê de 3kg possa carregar.

Tudo começou quando ela nasceu. Nasceu, e faltou oxigênio no cérebro, então ela ficou ‘lentinha’. Até aí tudo bem, afinal, nem todo mundo tem esse QI genial que eu tenho, e mesmo assim, as pessoas sobrevivem. Só que era uma pobreza, uma desgraça, que a criatura morava numa casa de tábua, lata e o que eles encontrassem pela frente e não podia pagar um médico pra acompanhar ela (obviamente). Então, eles foram num médico (que comprou o diploma no mercado livre em dia de promoção e de alguém famoso pelas suas qualificações negativas) e o “médico” disse pra mãe dela que era pra tratar a guria como uma pessoa normal. Que quando ela crescesse, ela não iria se interessar por roupas, ou acessórios, ou meninos, como as outras meninas… então que a mãe estimulasse o convívio dela com as outras meninas na mesma idade e que fossem normais sempre.

Com uns 13 anos comecei a me indignar com essa história. Mas com 13 anos tu não tens vóz ativa pra nada. E nada foi feito.

A questão é que, não há nada de errado com a guria! nunca houve! Ela simplesmente demora pra processar informações, mas processa. Esse médico, por não acompanhar o caso e ter provavelmente 200 pacientes por hora num hospital público e sem equipamentos, passou pra mãe dela instruções de com se trataria uma pessoa com síndrome de down, ou qualquer outro problema neurológico muito mais grave que o dela o tempo todo, o que não era o caso.

O tempo passou, ela parou de estudar, porque afinal de contas, como eles diziam: ”coitadinha, ela tem problemas”. A criança nunca pegou um caderno pra estudar. Justo ela que precisaria estudar o triplo das crianças normais pra acompanhar. Mas não, faz de conta que ela tinha problemas sérios que é mais fácil. Faz de conta que, ao mesmo tempo, não tinha uma menina na minha aula com EXATAMENTE o mesmo problema que ela, mas que por acaso tinha pais médicos, que sofria, estudava todos os dias – enquanto a gente só estudava na véspera das provas – e que hoje em dia é médica. Faz de conta tudo isso… e sigamos com a desgraça da guria.

Chegada a tal da adolescência, 18 anos, 4° série primária… aquela perspectiva toda de futuro, e a mamãe segue ao pé da letra as instruções do “dotô”.  Enfeita a guria, compra uma micro saia, batom, blush, sombra… e manda ela pra festinha de ano novo com as amigas!

Engravidou. Óbvio. E, se esse fosse o problema, ela teria sorte.

Quando a mãe dela descobriu que ela engravidara, morreu de desgosto. O médico disse que era câncer. Mas eu sei que foi desgosto. A criança nasceu. Pobre criança pobre… tá com 6 anos hoje. Não fala, não caminha, não nada. Absolutamente nada.

Então, a coitada da desgraçada conseguiu essa vida pra ela. Nasceu lerda, parou de estudar, engravidou, matou a mãe de desgosto, teve um filho que vegeta, não pode trabalhar porque tem que cuidar da criança, vive às custas do pai. Ah, não, peraí… vivia! Passado! Perdeu o pai agora.

Falando em pai. O da criança até hoje ela não sabe quem é.

Se isso fosse um filme, aos 97 minutos aconteceria alguma coisa muito emocionante que viraria a vida dela e tudo acabaria bem. Mas é vida real. E infelizmente, eu agradeço a Deus por não ser a minha.

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