Às pessoas que eu decepcionei

Nenhum homem é uma ilha. Mas às vezes a gente é exilado pra um lugar sem comunicação pelos nossos próprios atos. Então a gente fica ali, na ilha, sem opção e sem perspectiva.

Viver numa ilha é não ter planos. No início, o plano é sair dela, mas depois acostuma. Isolamento acostuma.

Há muito tempo atrás eu tinha amigos que confiavam em mim. Eu amava eles. Os problemas deles eram meus também e eu adorava ouvir, ajudar e toda aquela coisa.

Há muito tempo atrás eu era amiga de pessoas que não eram minhas amigas de volta. E eu achei que eu não ganhava nada sendo amiga delas. Achei que ser boa pros outros não tava valendo a pena. Eu me doava, poucas vezes em troca de muito, algumas vezes em troca de pouco, muitas vezes em troca de nada.

Há muito tempo atrás, inclusive, eu me apaixonei por um amigo, que por sinal já mal e mal queria ser um amigo. Pior ainda como alvo de paixão.

Nunca soube lidar com nenhum deles porque quando a gente mora numa ilha, só lida com a gente mesmo. Então, se tu quer escrever, tu escreve. Se quer sentir, sente. Se quer demonstrar, demonstra. Não tem ninguém ali pra te impedir.

Mas, quando tu tens que interagir com outros seres existem regras. Tá sentindo? Esconde. Quer gritar? Chora. Tá com saudade? Finge. Não quer fazer? Faz.

Eu não vivo muito bem dentro dessas regras.

Quando me magoam, eu reajo como se não existisse amanhã; quando eu sinto eu choro; quando eu grito, todo mundo ouve; quando eu to com saudade, eu mando um e-mail. Eu não finjo. E esse descontrole faz de mim uma pessoa louca.

Vou ser louca pra sempre.

Vou passar 20 anos pedindo desculpas, se durante 20 anos o que eu fiz ainda me torturar.

Vou insistir no que eu penso, insistir que eu tava certa até que eu me convença do contrário, não importa o quanto não seja convencional, não importa o que me digam.

Eu não vou sair de casa pra ir te ver se eu estiver cansada.

Vou me isolar dos meus amigos. Simplesmente porque existem horas em que eu preciso ficar sozinha. Existem semanas e existem meses. Não os amo menos por isso. Alguns deles.

Eu vou morar na minha ilha pra sempre, viver do meu jeito. Do jeito mais difícil de manter amizades que já inventaram. Na verdade, o que eu queria era não afetar ninguém com a minha existência, mas o simples fato de eu existir já afeta muita gente.

Deixar de existir eu não posso. Mas queria ter existido sem ter nunca machucado vocês.

Desculpa Julie, por não ter ido te ver todas as 20 vezes.

Desculpa Tefa, pela falta de atenção e por não memorizar as tuas histórias,  por demorar com o remédio, por entender tudo errado.

Desculpa Bady, por não ter aparecido.

Desculpa Andrei, por viajar dia 7.

Desculpa Mi, por não ser mais a tua mi.

Desculpa Bila, por não merecer o título de ‘família’…

Desculpa Larri,  pela dependência e por ter mentido pra ti.

Desculpa Bruninha, por não ter ido te dar tchau.

Desculpa Bruno, por não ir aos shows.

Desculpa Pedro, por … né?

Desculpa Mari, por não te acolher. Não saber o que dizer, não saber o que fazer… por não estar aí.

Desculpa Fell, por te forçar a reviver coisas que tu tentas não lembrar.

Desculpa Guilherme, pelo depoimento, por falar demais. Idiotice demais.

Desculpa Ly, por não conseguir morar aí.

Desculpa Otavinho, pelo que eu escrevi no celular.

Desculpa Vanessa, pelos almoços perdidos.

Desculpa Aninha, por não ter ligado, não ter feito a surpresa que eu queria … por ter tirado a tua maninha de ti.

Desculpa Jojô, por ter pego o último ônibus.

Desculpa Fer, por ter feito outra maquete.

Desculpa Primo, pelo xilique na festa.

Desculpa Martín, por falar demais e não saber me comportar ou controlar.

Desculpa Leo e Lu, por não ter ido ao casamento lindo de vocês. (E Juba e Mai e Maria Isabel…) se eu casar um dia numa igreja vazia, vou entender o porquê.

Desculpa Ju, pelos últimos anos sem te ver.

Desculpa Dadá, por te perder pelo mundo. Tu faz uma falta incrível.

Desculpa Karen, por deixar cada vez mais que a nossa amizade se torne um ponto perdido no passado.

Chefs, eu não tenho coragem de te pedir desculpas. Eu realmente acredito que eu tenha nascido pra atrapalhar a tua vida. Mesmo conseguindo literalmente contar nos dedos as vezes que eu te vi na minha.

Desculpa Tictac, pela louça suja e pela futilidade.

Desculpa Matheus, por não prestar pra nada.

Desculpa Piti, por não ser mais quem eu era pra ti nem por ti.

Desculpa Kico, por não ter voltado de ônibus contigo aquele dia quando eu sei que tu nunca farias isso comigo.

Desculpa Le, por ter mentido pra ti sobre o que eu pensava de ti realmente.

Desculpa Xuxis, por ter estragado a tua vida.

Desculpa Jacob, por existir.

Mesmo.

E se eu não tivesse decepcionado todos eles, todos eles viriam aqui e leriam o que eu escrevi.  Mas não é assim que funciona….porque não é assim quando a gente decepciona alguém.

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